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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Mais alguns gráficos para ponderar


     Hoje, os mercados norte-americanos subiram com o anúncio de que a Reserva Federal amentou a taxa de juro directora dos EUA em meio ponto percentual (+0,5%). Trata-se do maior aumento desde o ano 2000 levando o valor da taxa até aos 0,75%, o que, pelo visto, foi bem recebido pelos investidores. Aqui fica o gráfico histórico correspondente (2000-2022):




Ainda assim, o momento não é para euforias. Tal como uma andorinha não faz a Primavera, um dia positivo na bolsa não faz retomar uma tendência de subida. O sentimento dos investidores ainda é predominante bearish, o mais bearish dos últimos 35 anos:



Claro que isto até pode ser uma coisa boa, obedecendo à boa velha lógica do "comprar quando há sangue nas ruas". Mas ainda é preciso esperar para ver.

Por um lado, os stocks (inventários, não confundir com acções) das superfícies comerciais continuam a crescer:
 



Por outro lado, o abrandamento das novas encomendas na indústria manufactureira desde a tomada de posse do presidente Bidé ainda se mantém:
 



O défice comercial de bens e serviços (dos EUA) entrou agora em território negativo:
 

 
E o custo dos combustíveis fósseis continua a aumentar:



Ou, comparando o custo da energia com com o S&P 50 (XLE/SPY):



Last but not least, voltamos a olhar para o gráfico mensal do S&P 500, com a zona de suporte a vigiar assinalada a cor amarela:

 


A vela correspondente a esta semana está bonita, mas hoje ainda só é quarta-feira. Até sexta, tudo pode mudar. Portanto, "tudo como dantes no quartel de Abrantes"... é preciso manter a paciência e ver o que acontece nos próximos dias.

sábado, 28 de julho de 2018

Indicadores económicos: número de casas familiares novas vendidas


   Esta é a terceira posta de uma nova série sobre indicadores económicos. Nas duas postas anteriores vimos que:
  • Há indicadores económicos avançados (e.g. vendas a retalho) e indicadores económicos atrasados (e.g. taxa de desemprego);
  • Os indicadores atrasados não devem ser usados para identificar pontos de entrada e de saída do mercado, uma vez que são uma consequência da conjuntura económica e não uma causa; os indicadores atrasados são úteis para confirmar que já estamos em recessão, mas não  para antecipar a chegada da recessão;
  • Os indicadores adiantados são mais úteis para antecipar a chegada de períodos recessivos, porque tendem a degradar-se alguns meses antes de a economia começara a afundar; nenhum indicador avançado é 100% fiável, pelo que convém olharmos sempre para vários indicadores antes de tomarmos decisões acerca dos nossos investimentos.
  • As vendas a retalho, assim como todos os indicadores expressos em moeda, têm que ser ajustadas pelo valor da inflação para que se possam identificar abrandamentos e quebras de tendência que sirvam de aviso a uma eventual chegada da recessão.
  • As vendas a retalho ajustadas pela inflação têm subido sustentadamente desde a crise financeira, pelo que, para já, elas não nos inspiram motivos de preocupação.

Hoje vamos olhar para outro indicador económico avançado muito útil e simples de usar, que é o número de casas familiares novas vendidas em cada mês (NCFNVmês). O NCFNVmês tem uma grande vantagem sobre as vendas a retalho: como se trata de uma quantidade de produtos vendidos (casas), não temos de o ajustar pela inflação. Assim, basta olharmos para um gráfico deste género:



Podemos, alternativamente, visualizar os dados do gráfico acima na forma trimestral (ou quarterly, em inglês):


Reparem bem nas setas a cor vermelha que eu desenhei sobre o gráfico, caros leitores. É a isto que se chama um bom indicador avançado: a curva no gráfico está a descer ou estagnou (deixou de subir) antes dos períodos cinzentos (recessões). É evidente, ao olhar para este gráfico, que o NCFNVmês constitui um excelente indicador avançado, embora seja sempre preciso salientar que nenhum indicador económico é 100% fiável. Sim, eu sei que me estou a repetir... e ainda me hei-de repetir muitas mais vezes, porque é assombrosa a quantidade de pessoas que não parece perceber que, no que respeita a indicadores económicos, não chega usar apenas um ou dois!

Ora, o o NCFNVmês diz-nos quantas casas novas familiares foram compradas, mas convém sabermos mais um pouco acerca do estado do mercado imobiliário. É um bom sinal que as pessoas estejam a comprar mais casas, mas... será que os vendedores estão confiantes para os próximos meses? Uma boa forma de tentarmos perceber isso é sabermos quantas casas novas foram postas à venda, olhando para o número de casas privadas que começaram a ser construídas ou número de casas novas iniciadas em cada mês (NCNImês):



Também neste caso é possível (e preferível) olhar para um gráfico trimestral para eliminar o "ruído" provocado pela variabilidade mensal. Reparem novamente nas setas a cor vermelha, que antecipam os períodos de recessão:

Um comentário que deve ser feito nesta altura é que o NCNImês não é um indicador tão bom a antecipar recessões como o NCFNVmês. Com efeito, se compararmos o gráfico do NCNImês (acima) com o gráfico do NCFNVmês (dois gráficos acima), verificamos que, regra geral, o NCFNVmês se deteriorou antes do NCNImês. Então porquê usar também o NCNImês e não apenas o NCFNVmês? Porque há uma excepção nos gráficos: durante os meses que antecederam a "bolha das dot com", no início deste século, o NCNImês avisou os investidores antes de o NCFNVmês

Ou seja, os dois indicadores,  NCNImês e NCFNVmês, são complementares. Há uma explicação lógica para isto: a compra de casas novas depende do dinheiro que os compradores (as famílias) têm disponível ou esperam ter disponível nos próximos anos. Já a construção de casas novas depende da perspectiva que as construtoras têm do estado do mercado imobiliário e da sua evolução futura. Regra geral, as pessoas vão ficando sem dinheiro gradualmente e deixam de comprar casas novas de forma progressiva, antes de construtoras se começarem a ressentir fortemente nos lucros e deixarem de apostar em novas construções, pelo que o NCFNVmês avisa geralmente primeiro do que o NCNImês. Mas há outras situações em que, por especificidade conjuntural das condições económicas, as construtoras se apercebem da estagnação da economia ainda antes de as famílias ficarem sem dinheiro, deixando de construir casas antes de as famílias as pararem de comprar. Nesse sentido, o que se passou no início deste século foi tão simples quanto isto: a economia já estava em desaceleração e as construtoras perceberam-no, mas a banca continuou a conceder crédito às famílias, pelo que houve compra de casas novas mesmo depois de as construtoras terem abrandado o ritmo de construção.

Em jeito de comentário final, devo referir que há muitos outros indicadores sobre habitação familiar, mas estes dois são de longe os meus favoritos. Por exemplo, há quem goste de usar o custo médio ou o custo mediano das casas novas, mas eu acho que esses indicadores são falaciosos porque dependem da dimensão das casas novas, ou seja, são afectados por factores culturais e geracionais (e.g. os millennials já não procuram casas tão grandes como os seus progenitores) e não apenas factores económicos. Por outras palavras, uma redução do custo médio ou mediano das casas novas não reflecte necessariamente uma falta de dinheiro por parte das famílias. Além de que, mais importante ainda, esses indicadores não têm sido, em termos históricos, tão bons a antecipar as recessões como o NCNImês e o NCFNVmês.

Deixo aqui uma tabela-resumo com os indicadores que vimos até ao momento. Ao longo das próximos postas, acrescentaremos muitos mais!

Indicadores Económicos
    Avançados (ou adiantados)    Recuados (ou atrasados)
  Número de Casas Novas Iniciadas      Taxa de Desemprego
  Número de Casas Familiares Novas Vendidas
  Vendas a Retalho + Restauração

sábado, 21 de julho de 2018

Como (não) analisar o valor das vendas a retalho e da restauração


    Na sequência desta posta que fiz há uns dias a criticar o uso da taxa de desemprego como indicador fundamental de mercado, decidi fazer uma nova série de postas sobre que indicadores económicos vale a pena usar e de que forma é que devem ser usados. Começo por relembrar a conclusão da última posta: a taxa de desemprego não serve para antever o desempenho futuro da economia, muito menos se for usada de forma isolada, porque ela decorre do estado da economia, i.e. é uma consequência da conjuntura económica (indicador atrasado), não podendo ser usada para inferir ou antecipar aquilo que vai acontecer a seguir nos mercados.

O que nós queremos fazer quando estamos investidos em bolsa é olhar para aqueles indicadores económicos que antecedem os períodos de recessão económica (indicadores adiantados ou avançados) e não usar aqueles que se degradam apenas quando a recessão já começou. Isso existe? Existe pois, embora todos os indicadores tenham as suas limitações. Um dos indicadores económicos mais fiáveis que podemos utilizar para antecipar os períodos de recessão económica é o valor das vendas a retalho em cada mês, que consiste no valor monetário, expresso em moeda (e.g. euros ou dólares), de todas as actividades de venda de bens ou serviços directamente aos consumidores finais. Porque é que este indicador é bastante fiável (notem que eu não escrevi que era infalível)? Porque enquanto o valor das vendas estiver a crescer ao longo dos meses, a economia estará provavelmente em expansão.

Nos EUA, o valor das vendas a retalho não inclui o sector da restauração, pelo que é necessário começar por encontrar um gráfico como este, que inclua a soma de ambos:



Notem que o título do gráfico diz "advance retail sales" e não apenas "retail sales". Há um motivo para isso: o ponto respeitante ao mês mais recente, neste caso o de Junho de 2018, é apenas uma estimativa (uma projecção que é "avançada", daí o termo advanced), não é um dado definitivo. Os períodos de recessão foram assinalados a cor cinzenta no gráfico.

Agora prestem atenção, que o que vou dizer a seguir é extremamente importante: as vendas a retalho são de grande utilidade enquanto indicador económico, mas o gráfico acima, que é, infelizmente, aquele mais frequentemente usado pelos investidores, não é o mais adequado para as analisar. Porquê? Porque as vendas a retalho expressas em dinheiro são inflacionadas pelo crescimento ou decrescimento da inflação.

E qual é o problema disso? Vou tentar explicar com um exemplo simples: imaginem que vocês são comerciantes ou prestadores de serviços e, num dado ano, fazem vendas no valor de 100 mil euros. No ano seguinte, fazem vendas no valor de 101 mil euros. E no ano seguinte ao seguinte, fazem vendas no valor de 102,01 mil euros. Se a taxa de inflacção anual for de 1%, quanto terão crescido as vossas vendas nos dois anos seguintes ao primeiro?... ZERO! Sim, zero, ora reparem: 100 x 1,01% = 100 e 101 x 1,01% = 102,1%. Ou seja, vocês terão tido exactamente o mesmo volume de negócios em cada ano, não terá havido crescimento! É por isso que o gráfico acima não é o mais adequado para analisar as vendas a retalho porque, ao não considerar o efeito da inflação na curva representada, tende a mostrar-nos um crescimento superior ao real!

Aliás, reparem no seguinte: no gráfico acima, as vendas a retalho cresceram sempre antes das recessões. Ou seja, não nos avisaram que as recessões estavam a caminho! Como poderemos, então, contornar este problema e obter um gráfico mais adequado? É simples, temos de considerar o efeito da inflação nas vendas a retalho, o que pode ser feito em dois passos: (1) obtendo a série de valores mensais do índice de preços no consumidor (IPC, ou CPI na versão inglesa) e (2) dividindo as vendas a retalho em cada mês pelo IPC correspondente. O gráfico abaixo mostra a evolução do IPC nos EUA desde 1946:


E este outro gráfico, que é aquele que realmente queremos analisar, mostra-nos as vendas a retalho e da restauração sem o efeito da inflação:


Comparem este terceiro gráfico com o primeiro e rapidamente notarão que:
  • No gráfico sem inflação, as vendas a retalho estagnaram muitos meses antes de os períodos de recessão começarem; no gráfico com inflação, não há estagnação, as vendas sobem sempre até aos períodos cinzentos!
  • Assim, o gráfico sem inflação pode ser usado para detectar abrandamentos na economia que servem como sinais de alerta para a possível chegada de uma recessão; já o gráfico com inflação não pode ser usado desta forma.
  • Em ambos os gráficos, com e sem inflação, as vendas a retalho parecem estar bem de saúde. Com efeito, elas têm crescido sustentadamente desde o final da crise financeira (última recessão), pelo que, para já, elas ainda não nos inspiram preocupação.

Mais uma vez, chamo a atenção para a realidade de que um indicador económico, por si só, é insuficiente para diagnosticar a (falta de) saúde da economia. É por isso que, em postas futuras aqui no As Crónicas da Bolsa, iremos olhar para outros indicadores que nos ajudarão a visualizar o grande quadro.